Lar Região Sob nova tensão, EUA e Irã protagonizaram o “jogo da paz” na Copa de 98

Sob nova tensão, EUA e Irã protagonizaram o “jogo da paz” na Copa de 98

por gabrielteles
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A morte do aiatolá Ali Khamenei, confirmada no sábado (28) após ataques coordenados dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, reacendeu um dos conflitos mais duradouros da geopolítica contemporânea. Em meio a ofensivas, ameaças e declarações de retaliação, o histórico recente entre os dois países remete a um episódio improvável: o chamado “jogo da paz”, disputado na Copa do Mundo Fifa de 1998.

Em 21 de junho daquele ano, norte-americanos e iranianos se enfrentaram no estádio Gerland, em Lyon, pela fase de grupos do Mundial. O sorteio colocou lado a lado na mesma chave duas nações sem relações diplomáticas desde a Revolução Islâmica de 1979, um período marcado pela crise dos reféns na embaixada americana em Teerã e, nos anos seguintes, pelo apoio dos EUA ao Iraque na guerra contra o Irã.

O ambiente era de segurança máxima. O confronto rapidamente extrapolou o futebol e passou a ser tratado como um teste diplomático em campo.

Flores, protocolo alterado e gesto simbólico

A imagem que atravessou décadas ocorreu antes mesmo do apito inicial. Os jogadores iranianos entregaram buquês de flores aos atletas americanos e posaram juntos para uma fotografia histórica.

O gesto exigiu ajuste no protocolo da Fifa. Pelo regulamento, o “time B” deveria caminhar em direção ao “time A” para o cumprimento oficial. O Irã era o time B naquela partida. Segundo relato posterior de Mehrdad Masoudi, integrante da organização do jogo, à Four Four Two, em 2014, houve ordem expressa do então líder supremo Ali Khamenei para que os iranianos não se dirigissem aos americanos. A solução foi inverter a dinâmica da saudação, permitindo o encontro no centro do gramado sem que o Irã avançasse formalmente em direção ao rival.

O jogo e a vitória histórica iraniana

Em campo, o Irã escreveu um capítulo inédito. Aos 40 minutos do primeiro tempo, Hamid Estili abriu o placar. Na etapa final, aos 38, Mehdi Mahdavikia ampliou após contra-ataque. Os Estados Unidos descontaram aos 42, com Brian McBride, mas não evitaram a derrota por 2 a 1.

Foi a primeira vitória iraniana na história das Copas do Mundo, um resultado celebrado como marco esportivo e nacional.

No histórico entre as seleções, foi uma vitória para cada lado e um empate. No confronto mais recente, os Estados Unidos venceu o Irã por 1 a 0, em jogo do Grupo B da Copa do Mundo de 2022, no Catar.

Futebol atravessado pela política

O encontro de 1998 ocorreu após quase duas décadas de hostilidade direta e indireta. Desde 1979, os dois países acumulam sanções, embates regionais e acusações mútuas. O próprio futebol iraniano já havia sido impactado pelo cenário político: em 1984, o ex-capitão da seleção Habib Khabiri foi executado pelo regime, acusado de colaborar com opositores.

Quase três décadas depois da cena das flores em Lyon, o noticiário volta a registrar ataques militares, justificativas envolvendo o programa nuclear iraniano e promessas de retaliação no Oriente Médio. Entre mísseis e declarações oficiais, a lembrança da tarde de 21 de junho de 1998 permanece como um dos raros momentos em que Estados Unidos e Irã dividiram o mesmo campo sob a lógica do esporte, produzindo uma imagem que sobreviveu à política.

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